Auriculoterapia no cuidado à saúde da mulher: possibilidades na prática clínica
A auriculoterapia na saúde da mulher pode ser incorporada à prática de profissionais capacitados como um recurso complementar para diferentes queixas. Dor, sintomas relacionados ao ciclo menstrual, tensão, estresse e outras demandas podem fazer parte da rotina de atendimento e exigem uma avaliação individualizada.
Para quem trabalha com Medicina Chinesa, conhecer a auriculoterapia amplia o repertório de recursos disponíveis. Para outros profissionais da saúde, a técnica também pode representar uma possibilidade de qualificação, desde que sua utilização esteja de acordo com a formação profissional, as normas aplicáveis e a indicação clínica.
O ponto central é saber avaliar cada caso, definir objetivos claros e acompanhar os resultados.
O que é auriculoterapia?
A auriculoterapia é uma prática que utiliza a estimulação de pontos específicos da orelha. No Brasil, ela está entre as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) oferecidas pelo SUS.
Segundo o Ministério da Saúde, a auriculoterapia utiliza estímulos em pontos da orelha e pode empregar recursos como agulhas, esferas metálicas ou plásticas e sementes. A prática integra o conjunto de 29 PICS atualmente institucionalizadas no SUS.
A técnica é frequentemente associada à Medicina Tradicional Chinesa, embora existam diferentes modelos e racionalidades utilizados na auriculoterapia.
Para o profissional, isso significa que aprender a técnica envolve compreender avaliação, localização dos pontos, formas de estímulo, indicações, contraindicações e acompanhamento, e não apenas memorizar um mapa auricular.
Por que pensar em auriculoterapia para a saúde da mulher?
A mulher pode passar por diferentes fases ao longo da vida, e cada uma delas pode trazer demandas específicas.
Na prática clínica, podem aparecer queixas relacionadas a:
- cólicas e dor menstrual;
- sintomas da tensão pré-menstrual;
- dores musculoesqueléticas;
- alterações do sono;
- estresse;
- ansiedade;
- sintomas relacionados à menopausa;
- dores recorrentes;
- desconfortos durante determinadas fases do ciclo;
- alterações que afetam a qualidade de vida.
A auriculoterapia não deve ser apresentada como solução universal para essas condições. A indicação precisa partir da avaliação e considerar o diagnóstico, as condições de saúde da paciente e outros tratamentos realizados.
Esse cuidado é especialmente importante quando a queixa pode estar relacionada a uma condição que ainda não foi investigada.
Auriculoterapia e dor: o que as evidências mostram?
A dor é uma das áreas em que existe uma quantidade relevante de pesquisas sobre terapias auriculares.
Uma revisão sistemática publicada em 2019 avaliou 15 ensaios clínicos randomizados sobre acupressão auricular para controle da dor. Doze estudos encontraram melhora estatisticamente significativa nos desfechos de dor em comparação com grupos de controle ou tratamento simulado. Os autores, entretanto, destacaram que a qualidade metodológica dos estudos era variável e que ainda faltavam pesquisas de maior qualidade para conclusões definitivas.
Uma revisão mais recente, publicada em 2025, analisou seis estudos com 496 participantes sobre acupressão auricular em dor musculoesquelética crônica. Os resultados apontaram melhora da dor e da incapacidade imediatamente após a intervenção, mas a qualidade da evidência variou conforme o desfecho.
Isso traz uma orientação importante para o profissional: resultado clínico precisa ser acompanhado e documentado, e não presumido a partir de um protocolo.
Auriculoterapia para cólicas e dor menstrual
A saúde da mulher também oferece um campo de interesse para a pesquisa em auriculoterapia.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 avaliou 11 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 793 participantes, sobre terapias de pontos auriculares para dismenorreia primária.
Os autores encontraram redução da dor menstrual e de sintomas associados em comparação com os grupos de controle. Também foram relatados principalmente eventos adversos leves. Ao mesmo tempo, os pesquisadores destacaram uma heterogeneidade importante entre os estudos e a necessidade de padronizar melhor os métodos de aplicação.
Outra meta-análise, publicada em 2023 e envolvendo 35 ensaios clínicos e 3.960 participantes, também encontrou associação entre acupressão auricular e melhora de medidas relacionadas à dor menstrual. Porém, houve heterogeneidade elevada em vários resultados analisados.
Para quem atua na prática clínica, isso reforça a importância de evitar protocolos automáticos.
A paciente pode apresentar uma queixa semelhante à de outra mulher, mas ter uma história clínica completamente diferente.
Como estruturar a avaliação da paciente
Antes de escolher os pontos ou definir a estratégia de atendimento, é importante entender o que está acontecendo.
Uma avaliação prática pode começar por:
1. Identificar a principal queixa
Qual é o motivo que levou a paciente ao atendimento?
Dor? Ansiedade? Alteração do sono? Sintomas menstruais? Menopausa? Uma combinação de fatores?
2. Entender a história do sintoma
Investigue:
- quando começou;
- frequência;
- intensidade;
- duração;
- fatores que pioram ou aliviam;
- impacto na rotina;
- tratamentos anteriores;
- medicamentos em uso.
3. Verificar o contexto de saúde
Conhecer doenças diagnosticadas, cirurgias, gestação, tratamentos em andamento e outras condições relevantes ajuda a definir se a auriculoterapia é adequada naquele contexto.
4. Definir um objetivo mensurável
Um objetivo bem definido facilita o acompanhamento.
Em vez de registrar apenas “melhorar a paciente”, por exemplo, pode ser mais útil acompanhar a intensidade da dor, a frequência de episódios ou a qualidade do sono.
5. Reavaliar
Depois das sessões, compare os resultados com o estado inicial.
Esse processo ajuda a identificar se a estratégia está contribuindo para o objetivo definido ou se a conduta precisa ser modificada.
Auriculoterapia na menopausa
A menopausa é outra situação em que profissionais que atendem mulheres podem encontrar demandas relacionadas ao sono, dor, estresse e sintomas vasomotores.
Nesse contexto, a auriculoterapia pode ser estudada como uma abordagem complementar, mas é importante separar o que possui evidência específica do que é extrapolado de pesquisas sobre outras técnicas.
A literatura sobre acupuntura e outras abordagens auriculares apresenta resultados diferentes conforme o sintoma e o método utilizado. Por isso, o profissional deve evitar afirmações como “auriculoterapia trata a menopausa” e trabalhar com objetivos clínicos específicos.
Essa precisão melhora a comunicação com a paciente e também protege a qualidade do atendimento.
Auriculoterapia e câncer de mama: atenção aos limites da prática
No contexto do Outubro Rosa, essa é uma questão especialmente importante.
Uma mulher pode procurar um profissional de MTC ou outra prática integrativa durante ou após um tratamento oncológico. Nesses casos, a auriculoterapia pode ser considerada como recurso complementar em determinadas situações, mas não substitui diagnóstico, cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia ou outras condutas indicadas pela equipe responsável.
A atuação deve ser integrada ao cuidado da paciente e respeitar os limites profissionais.
Quando existe uma alteração suspeita, o encaminhamento para investigação também faz parte de uma boa prática clínica.
Quais recursos podem ser utilizados?
A auriculoterapia pode utilizar diferentes formas de estimulação, dependendo da técnica aprendida pelo profissional e do contexto do atendimento.
Entre os recursos utilizados estão:
- sementes;
- esferas;
- agulhas;
- outros materiais específicos para estimulação auricular.
O Ministério da Saúde descreve a utilização desses diferentes recursos na auriculoterapia oferecida dentro das PICS.
A escolha do recurso deve considerar a formação do profissional, a avaliação realizada, a condição da pele, a tolerância da paciente e os objetivo.
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